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CRP-RJ promove Reunião Ampliada em Olaria para debater a atuação de psicólogas(os) em contextos de violência de Estado


Data de Publicação: 15 de maio de 2026


O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ), por meio da Comissão Gestora da Capital, realizou uma Reunião Ampliada presencial na  Coordenadoria Geral de Atenção Primária da Área de Planejamento - AP 3.1,  localizada no bairro de Olaria, zona norte do Rio. O evento, que contou com um espaço bem cheio, teve como tema principal a “Atuação de psicólogas(os) em contextos de violência de Estado”. O encontro reuniu profissionais da rede e estudantes com o objetivo de promover um espaço de diálogo, escuta e reflexão sobre os severos desafios enfrentados pela categoria e sociedade em territórios e situações cotidianamente atravessados pela violência institucional.

A abertura oficial foi conduzida pela Comissão Gestora da Capital, que marcou presença e demonstrou a importância de aproximar o Conselho dos locais de trabalho, sendo representada pela conselheira e coordenadora Elisa Martins Silva (CRP 05/64825), pelas colaboradoras Iamara Gonçalves Peccin (CRP 05/73933),  Luiza Contreira Pereira Mendes (CRP 05/71315) e pela colaboradora Mykaella Moreira dos Anjos e pelo colaborador do Eixo de Violência de Estado e Enfrentamento à Tortura, do CRP-RJ Luca Lima da Luz dos Santos (CRP 05/85825).
A colaboradora da Comissão Gestora Mykaella ressaltou o desafio de pensar a responsabilidade ética e política da Psicologia em uma cidade marcada por violações de direitos e operações policiais rotineiras. Ela pontuou que debater a atuação nessas áreas significa atuar junto a populações marginalizadas (em especial, negros e pobres) e pensar formas não apenas de contabilizar os danos, mas de produzir vida e resistências a partir das práticas profissionais.

A programação contou, inicialmente, com uma primeira mesa disparadora sendo composta por Evelin Dias, assistente social, coordenadora de acolhimento na Frente Penha e Dejany Ferreira (CRP 05/43271), psicóloga, coordenadora técnica da RAAVE (Rede de Atenção a pessoas Afetadas pela Violência de Estado), mediadas por Mykaella.

As convidadas evidenciaram a urgência de um modelo de acolhimento humanizado que não revitimize as famílias. Elas alertaram sobre a banalização da violência pelo Estado e apontaram que não é possível realizar um atendimento eficaz sem uma Rede sólida capaz de dar suporte não apenas à população, mas também à(ao) profissional da Psicologia.

A Assistente social e moradora da Penha Evelin Dias, abriu os debates trazendo a urgência de um acolhimento humanizado para a população, questionando as pessoas presentes: "como você gostaria de ser tratado?". Ela destacou que as famílias vitimadas, majoritariamente corpos pretos e pobres, muitas vezes encontram barreiras e julgamentos nos serviços de atendimento ao invés do cuidado adequado. Evelin também criticou a banalização do sofrimento dessas famílias e a negligência do Estado.

A psicóloga Dejane, focou sua fala na importância de não revitimizar as pessoas em sofrimento e na necessidade de se desconstruir o "Estado que há em nós" na hora de atuar. Dejane foi contundente ao afirmar que é impossível prestar um bom atendimento sem uma Rede de apoio estruturada (CRAS, CREAS, Defensoria Pública, Clínicas da Família e sociedade civil). Ela lembrou que a Psicologia frequentemente "chega depois", quando as famílias já estão desestruturadas financeiramente e lidando com altos custos de enterro, tornando o suporte multidisciplinar essencial.

Em seguida, para tensionar o debate através de outras linguagens e renovar as forças coletivas, houve uma intervenção cultural conduzida por Natan Hermínio, morador da Vila Cruzeiro, graduando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, atua como mobilizador no eixo Advocacy pela Movimentos, atua como educador popular e redutor de danos, além de cantor, compositor e mestre de cerimônias.

Por meio da música "1,50" e das poesias "Bala", "Sou de Favela", "Tapando o sol com a peneira" e "Língua do P", Nathan denunciou o racismo, a hipocrisia da guerra às drogas e o genocídio contínuo. A arte foi posicionada como uma ferramenta de expressão essencial para dialogar sobre a violação de Direitos Humanos, a criminalização das favelas e as dores do território.

O debate prosseguiu com a formação de uma segunda mesa, conduzida por Luca e com a participação de Thais Marques, psicóloga no CAPS III Arthur Bispo do Rosário, Isabela Barbosa, psicóloga, apoiadora Institucional da Linha de Cuidado às Violências da CAP 3.1, Ana Tobossi, educadora popular, ativista antirracista, mulherista e Vilson Luiz, engenheiro de produção, agente cultural e membro da Frente Penha.

A mesa aprofundou a vivência de profissionais que são, muitas vezes, moradores e trabalhadores dessas mesmas áreas. Discutiu-se como a prática em saúde é diretamente afetada e levantou-se um questionamento ético e estrutural urgente sobre "quem cuida de quem cuida" frente a um trauma continuado que atinge tanto usuários quanto equipes de assistência.

 

Luca Lima, mediador da segunda mesa, trouxe a realidade de quem acorda diariamente com o som de helicópteros e operações quase todos os dias. Ele questionou como a teoria acadêmica tradicional da Psicologia se aplica a essa vivência, provocando os profissionais a escutarem de verdade as histórias por trás das estatísticas de violência.

Thais Marques, psicóloga do CAPS Artur Bispo do Rosário e moradora da Penha, relatou o choque duplo de ser profissional e moradora atravessada pelo mesmo trauma. Ela descreveu a duríssima experiência de passar pelo "mercado das carnes", um açougue que fica na esquina onde os corpos foram colocados, dias após a chacina que ocorreu no local em 2025, observando onde os corpos haviam ficado estirados, e o desafio de ver a vida e o comércio local continuarem apesar da barbárie, levantando questionamentos sobre como promover saúde em um cenário de luto constante.

Isabela Barbosa, psicóloga e apoiadora institucional de saúde mental na AP 3.1, trouxe o foco para o esgotamento de quem atua no "olho do furacão", especialmente os Agentes Comunitários de Saúde. Ela detalhou as rodas de escuta criadas para apoiar as equipes após o massacre e ressaltou que as(os) profissionais precisam se autorizar a dar nome ao sofrimento causado pela violência de Estado, evitando individualizar ou patologizar a dor dos usuários.

Ana Tobossi, educadora popular e moradora da região da "Terra Prometida" (Penha), relatou os danos severos à sua saúde (que perduraram por cerca de 10 anos) após a ocupação policial de 2010, desenvolvendo pânico de perder os filhos. Ana denunciou o projeto estruturado de extermínio da população negra e pediu diretamente ao Conselho que estabeleça formações de pauta antirracista como obrigatórias para o exercício profissional no território.

 

Vilson Luiz articulador local e nascido na Penha, criticou institutos de fora da favela que produzem dados irreais sobre o território e destacou uma contrapesquisa realizada por mais de 4.000 moradores das favelas da Maré, Penha, Rocinha e Alemão (MAROPEA), para mostrar a verdadeira perspectiva da população. Questionando "quem cuida de quem cuida?", ele alertou para o desgaste dos profissionais residentes da área e convidou todos a reconhecerem a favela também por sua imensa riqueza histórica (indígena e quilombola) e cultural, como o samba e a capoeira.

Por fim, após as mesas expositivas, foram montados grupos de trabalho (GTs) para aprofundar as discussões e formular encaminhamentos para a prática profissional. O encontro reafirmou o compromisso ético e político do CRP-RJ com o território e a defesa intransigente dos Direitos Humanos, atestando a importância da proximidade do Conselho junto à categoria para a construção de referências técnicas ancoradas na realidade.


Durante todo o evento, as(os) profissionais e estudantes debateram ativamente as complexidades técnicas e ético-políticas que envolvem o acolhimento às vítimas e às comunidades severamente afetadas pelas operações e políticas de morte. A proposta central foi compartilhar vivências, analisar os impactos avassaladores dessa violência na saúde mental e construir, de forma coletiva, estratégias de cuidado, resistência, sobrevivência e garantia de direitos.



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